23 Junho, 2008 at 6:45 pm | In Matérias | Leave a Comment
por Yuri Machado e Wagner Pimenta
Todos os Murietas
O terreno aberto em pás e sachos era tomado pelo amarelo grosso do sol aportado do Caribe. Imigrados de todas as Américas, os mineiros chegavam à Califórnia para encher as unhas de terra preta, abrir com os dedos as pedras e caçar o ouro. A cidade era mexicana, mas fora anexada aos Estados Unidos; as minas eram latinas, mas dominadas pelos ianques: o país que nascia começava a mastigar o continente.
Mitológico, Joaquín Murieta, bandoleiro da Corrida do Ouro –não se sabe se mexicano ou chileno– na época ainda era apenas um domador de cavalos atraído pelo aquecimento da economia. Na viagem rumo à California, conhecera Teresa, camponesa, com quem se casara; ainda sem saber que a morte desta – estuprada e assassinada por um grupo de americanos “patriotas” – seria o estopim de sua transformação em símbolo de resistência.
A lei pendia para os galgos. Os antigos donos do chão passavam a ser dele expulsos à porretadas e tiros, enquanto pesadíssimos impostos eram cobrados aos mestiços –fossem novos, fossem antigos mineiros da região. O então desolado Murieta decidia juntar-se a outros quatro greases (ou “sebosos”, como eram taxados os latinos), para vingar-se da invasão ianque.
Decapitado poucos anos após chegar à Califórnia, Joaquín Murieta logo chegou ao posto de figura folclórica carimbada para as revoluções latinas, tendo sido, por exemplo, bastante citado pela frente zapatista. Descrito por quem o vira em 1850 como um bem vestido e educado cavaleiro, o rebelde entrou para a lista dos “criminosos” mais amados da história, ao lado de Tiradentes e Cristo; muito principalmente entre os mexicanos.
O bandoleiro renderia ainda inspiração para personagens diversas de cinema, prosa e teatro, tomando formas e nomes diferentes. Considerado o “Robin Hood” da Califórnia, Murieta daria luz ao “Zorro”, e inspiraria o roteiro de Guillermo Arriaga, “Os três enterros de Melquíades Estrada”, de 2005, sem contar sua recriação poética escrita por ninguém menos que Pablo Neruda, poeta chileno, em sua única peça para teatro, de 68; “Fulgor e morte de Joaquín Murieta”.
Todos os enterros
Tendo sido indicado para prêmios diversos de teatro, Guillermo Arriaga focou a narrativa de “Os três enterros de Melquíades Estrada” em um ponto muito curioso da vida de Joaquín Murieta –embora este nome não esteja no roteiro, apenas no pé verídico da história-; a incerteza que paira até hoje sobre o local de nascença e morte do bandoleiro, esta que traz 3 versões diferentes – entre elas inclusive a da suposta fuga de Murieta, que nunca teria sido realmente capturado.
Na peça, mais tarde transformada em filme dirigido por Tommy Lee Jones, o guardador de cavalos mexicano, Melquíades Estrada, imigrante ilegal residente nos Estados Unidos (em terras das anteriormente mexicanas), é assassinado por acaso quando um ianque atira desordenadamente para o deserto, mirando no que acreditava ser um coiote. Pete Perkins, fazendeiro local e amigo de Melquíades, então decide partir em uma jornada para levar o corpo do mexicano para casa, além da fronteira, tendo antes de desenterrá-lo dos fundos da delegacia.
A casa de Melquíades não existe. Pete é guiado o roteiro todo por uma foto de uma família que não é a do amigo, e pela descrição de um vilarejo que nada mais é do que um vale abandonado onde nada de fato jamais houvera. Termina por enterrar o corpo de Melquíades a ultima vez neste vale desolado, em sua vila imaginária. Da mesma forma, nem o casamento de Murieta e Tereza pôde ser comprovado; sequer metade de suas façanhas. Dizia-se que roubava dos ricos para dar aos pobres, tal qual o mito inglês de Robin Hood, mas tudo que se pode dizer com certeza é que foi dos criminosos mais procurados. Nesta forma, sua existência real é praticamente anônima, quase tanto quanto a de Melquíades de Arriaga.
Nomear o roteiro de “Três enterros..” é mais do que uma sugestão de sua intenção. O título não só coroa a imortalidade de um símbolo, este que não pode morrer, pois parece desenterrar-se e ressuscitar quantas vezes for preciso, como discute a importância final da própria existência de Joaquín Murieta. Melquíades, na história, mesmo depois de morto, é sentado e coberto pelo amigo como se estivesse vivo; Pete inclusive conversa com ele a maior parte do tempo. Assim, Murieta, como Ernesto “Che” Guevara e Mahatma Gandhi, não pode ser “desmascarado”, pois deixou de precisar ter existido tão grande quanto seu mito há tempos. Talvez nunca tenha precisado. Murieta terminava por ser apenas a representação dos horrores da imigração frente a xenofobia, tanto quanto Ernesto o símbolo da não-submissão ao Imperialismo Norte-americano, e Cristo a bandeira do altruísmo e do sacrifício. Melquíades, por sua vez, era um símbolo de Murieta.
“De tanto amar llegué a tanta tristeza,
De tanto combatir fui destruído
Y hora entre lãs manos de Tereza
Dormirá la cabeza de um bandido.”
(Pablo Neruda, em “Fulgor y muerte de Joaquín Murieta)
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