Teatro latino-americano: preconceito e falta de divulgação
24 Junho, 2008 at 12:20 am | In 1, Matérias | Leave a CommentPor Júlia Aronchi e Natália Manczyk
A peça Valsa das Solitárias, que está em cartaz na Casa das Rosas, em São Paulo, foi estendida até 29 de junho. São três monólogos dirigidos por Diego José Villar, onde as atrizes e também produtoras Patrícia Leornadelli, Fernanda Cunha e Líria Varne trazem com sutileza e ironia a única montagem de um autor latino-americano em cartaz, atualmente, na capital paulista.
A obra é do dramaturgo argentino, naturalizado chileno, Jorge Díaz que faleceu no ano passado aos 77 anos. Os esquetes interpretados, “Um Negócio de Peso”, “O Jardim das Delícias” e “Casta Diva”, fazem parte de um compêndio de textos escrito pelo autor entre 2002 e 2003, que trata sobre os dramas do universo feminino. Os monólogos mostram, respectivamente, o culto ao corpo, o relacionamento familiar e a dificuldade do mercado de trabalho.
Patrícia Leonardelli, natural de Porto Alegre, fez mestrado e doutorado na faculdade de Artes Cênicas da USP Universidade de São Paulo-, onde lecionou e criou, em sua disciplina, um grupo de estudos de dramaturgia latino-americana contemporânea. “O intuito era descobrir textos de autores que não se montam no Brasil e que pouco se fala”. Ela conta que na faculdade as peças sequer são sugeridas pelos professores.“Foi com essa pesquisa que eu encontrei a Valsa das Solitárias e como as meninas ( as duas outras atrizes) estavam buscando textos desafiadores que nos colocassem no limite e nos fizesse experimentar curvas dramáticas, escolhemos este conjunto de textos”.
Patrícia conta que, no Brasil, ainda não há muita pesquisa sobre esse tipo de dramaturgia por causa do preconceito. “A gente fala latino- americano como se nós não fizéssemos parte disso. Mas só nós somos assim, o intercâmbio entre os outros países vizinhos é muito maior”. Para Patrícia, a língua diferente não significa um obstáculo para a representação dos textos, já que o espanhol não é incompreensível a tal ponto. “Esta é uma questão de colonização mesmo, este é o grande entrave”. Segundo ela, os problemas começaram com a ditadura. “Antes, existia uma integração, existiam momentos, conversas, existiam viagens. Mas fecharam a fronteira, impediram a comunicação, enfiaram americano aqui, enfiaram Mc Donald’s. E até hoje a gente está assim, nós somos colonizados”, repete.
Ela também atribui a culpa pela falta de divulgação do teatro latino-americano às instituições, que dificultam o patrocínio. Enquanto a Cultura Inglesa faz, segundo ela, “um trabalho louvável” com a organização de três festivais anuais (o Tim Festival, o Drama Festival e o festival de divulgação da dramaturgia britânica contemporânea) e dá entre 30 e 35 mil reais para quem deseja produzir uma peça inglesa, o Instituto Cervantes não organiza eventos deste tipo e dificulta o apoio às produções culturais. “Não é à toa. Os ingleses são mais ligados. Eu estou de mecenas. Eu! E o Cervantes não pode pagar?”.
Sobre a recepção de textos latino-americanos pelo público, Patrícia acredita que as diferentes realidades vividas entre os diferentes países não são um problema para o entendimento das obras. Segundo ela, a temática é coletiva e a memória histórica latino-americana é comum. “O que aconteceu com a gente aconteceu com todos os países. Todos fomos brutalmente colonizados, todos sofremos ditaduras, todos temos nossas feridas e todos estamos atrás da nossa historia que não esta clara”.
Conforme a atriz e professora, ouve-se muito que as obras latino-americanas são afetadas ou “calientes” e, com isso, os textos são tratados somente de forma sarcástica. “Eu já li críticas dizendo que a dramaturgia latino-americana é de ‘tipos’, sem profundidade, o que é uma grande bobagem e mostra que as pessoas efetivamente não conhecem”. Ela completa: “Nós sabemos de todos os norte-americanos contemporâneos, mas não sabemos dos latinos americanos, o que é paradoxal”.
Em maio deste ano, uma mostra da Cooperativa Paulista de Teatro trouxe um pouco da dramaturgia latino-americana a São Paulo. O evento reuniu 11 companhias teatrais que representaram as artes cênicas de sete países, além de palestras e debates sobre os atuais problemas que enfrenta o teatro da região. Patrícia concorda que a iniciativa foi positiva estimulando a formação do público. “Isso vai fazendo as barreiras caírem e vai tirando um pouco dessa visão elitista babaca sobre o que se produz na América Latina”.
A escolha do texto de Jorge Díaz se deu por ele trabalhar com o limite muito delicado entre o que é absurdo e o que não é. “O tempo inteiro ele joga com o que é esquisito, o que é familiar, engraçado e o que é constrangedor. Esses textos eram o que sintetizava melhor essa estratégia literária do autor”, afirma Patrícia.
O subgênero Teatro do Absurdo, onde muitos encaixam a obra de Jorge Diaz, é polêmico, mas, como explica Patrícia, não tem como desconsiderar a raiz do mágico na literatura latino-americana. “O que a gente chama de mágico é essa coisa de brincar com realidades tão fabulosas quanto a realidade verdadeira. E nisso Gabriel Garcia Marques é o maior de todos os autores”.
Um recurso usado para montagens latino- americanas é misturar as duas línguas, gerando uma sonoridade que o público reconhece mas não é comum. Colocar palavras em espanhol gera uma esquisitice, mas não pode causar estranheza, explica Patrícia: “Algumas palavras a gente tirou porque o nosso diretor achava que ficava muito esquisito. Por exemplo quando o meu personagem fala para o Chiquinho parar de comer os seus dedinhos que não são doces porque se não ele vai ficar manco (rs). Mas ‘manco’ a gente usa mais pra falar do pé e daí trocamos por ‘aleijado’.
Algo semelhante quase aconteceu em outro momento da peça quando a personagem se refere ao médico como um ‘desalmado’. “Mas essa palavra a gente não tirou porque tinha uma esquisitice de texto latino e não queríamos que ficasse um coloquial brasileiro”.
A peça ora choca ora conforma e, por vezes, nos faz rir e pensar. Vale a pena ir até a bela Casa das Rosas e contemplar o ambiente intimista da sala de espetáculos com capacidade para apenas 25 pessoas na platéia.
Serviço: A Valsa das Solitárias. Casa das Rosas, Av. Paulista número 37. Sábados às 21h00 e Domingos às 19h00. 14 anos. Até 29 de junho. R$ 15.
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