A nova faceta do teatro argentino: textos para o palco

Por Thiago Bronzatto

O ator, diretor e dramaturgo argentino Rafael Spregelburd (www.spregelburd.com.ar) é um daqueles artistas que consegue deter-se com atenção aos mínimos detalhes e enxergar ali matizes poéticas. Sua sensibilidade é tamanha que, quer diálogos ou monólogos, consegue compor um dito que se completa e se revela no não-dito.

Neto de prussianos, ele economiza palavras e gestos ao falar sobre a sua infância – nasceu na cidade de Buenos Aires na década de 1970. E quando é estimulado a recordar da sua formação cênica, sugere um sorriso desnudado por uma timidez notadamente portenha, mas não hesita em gastar interjeições ao lembrar das aulas dos mestres Mauricio Kartun e Ricardo Bartís.

Há 13 anos Spregelburd iniciou seus passos no teatro como ator. Mas o palco, para ele, ganhou dimensões mais complexas com o amadurecimento artístico. Logo estava escrevendo, compondo peças cujos aspectos fundamentais estão intrinsecamente ligados à visualização espacial do texto – não são meramente textos levados ao palco, mas “textos para o palco”. É assim que define uma das características muito presentes na moderna dramaturgia argentina, uma vez que seus autores são muitas vezes também atores e diretores.

Quando estreou sua primeira obra Destino de dos cosas o de tres, escrita em 1990 e encenada três anos depois, Spregelburd logo de cara cativou um nicho de amantes das cênicas em sua cidade natal: pessoas que fogem do circuito teatral costumeiro dos bonaerenses e não dispensam debates sobre os caminhos do teatro latino-americano.

Acassusso e Lúcido, montagens que se prolongaram durante meses em cartaz no Teatro Margarida Xirgu, em San Telmo, obtiveram grande êxito entre os amantes do teatro engajado pela restauração da identidade latino-americano. Até mesmo em suas traduções, o tom inteligente e sarcástico mesclado com um humor “politicamente incorreto” tocam fundo nas feridas sociais da América do Sul. Caso de Nada Perrito, do suíço Reto Finger, que traça diálogos mais agressivos, alcançando, paradoxalmente, um estado de graça nas gargalhadas da platéia ao tatear relações complexas.

Dirigida por Andréa Garrote, colega de Rafael na companhia El Patrón Vázquez, Nadar Perrito, fala da história de um marido que, após ter sido abandonado pela mulher, pede para ficar “mais um tempo” no sótão da casa dela até “arrumar outro lugar” para morar. Só que o tempo passa e ele continua lá, sempre espezinhando a ex-mulher e o namorado da vez. Apesar de esbarrar num surrealismo, a obra, que provoca risadas iniciais, revela seres humanos que são mais capazes de falar sobre sua vida do que vivê-la.

Já a peça Lúcido, um pouco mais opaca, cenicamente falando, foi uma encomenda de quatro atores catalães que haviam sido seus alunos em um curso na cidade de Barcelona. Como ele mesmo se define como um diretor/dramaturgo que gosta de ensaiar suas obras em períodos longos de tempo, começou a escrever a peça com atores argentinos. Em um processo que durou quase um ano, as cenas eram escritas e dirigidas quase simultaneamente. A obra pronta então foi estreada em Girona, em dezembro de 2006, e no mês seguinte em Barcelona.

“Pode parecer pretensioso, mas os modos de produção em Buenos Aires são muito diferentes do resto do mundo: temos outros trabalhos, teatrais ou não, ao mesmo tempo. Assim os ensaios são espaçados no tempo, para que haja um tempo para refletir com certa distância sobre o que se está fazendo. Damos muito mais importância ao processo de busca e ao ensaio criativo”, diz Spregelburd.

Para o crítico e dramaturgo Santiago García, diretor do Teatro La Candelária, “muito mais importante que o argumento da obra de Spregelburd é seu procedimento, um cruzamento de gêneros inconciliáveis: melodrama, teatro psicologista e absurdo de costumes”. Sem dúvida, qualquer tentativa de síntese da obra de Spregelburd é reducionista e passa ao largo de seus aspectos complexos e pluridirecionais, principalmente no que diz respeito à construção de um novo teatro que reafirme a identidade latino-americana.

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