Entrevista
Como você começou a fazer teatro?
Eu comecei com o grupo de teatro Pasárgada, de São Caetano. Nós éramos estudantes e vivíamos sob a ditadura brava do governo Médici. As artes eram muito vigiadas.
Como era essa vigilância?
Primeiro, os textos eram mandados para Brasília. Os censores liam e, se não gostavam de alguma coisa, ou censuravam todo o texto ou só alguns trechos. Muitos autores deixaram de ser encenados.
Quando viajávamos com a peça Jogos na hora da Sesta, com o grupo Circo XX, já liberada aqui em São Paulo, tínhamos que, em cada cidade, apresentá-la especialmente a um ou dois censores que analisavam se a peça poderia ser encenada. Acontecia da seguinte forma: se o espetáculo estava marcado para às 21h, às 14h tínhamos que apresentar para o censor. Então, mesmo já estabelecidos na cidade, não tínhamos certeza de que poderíamos mesmo encenar a peça. Imagina passar meses trabalhando em um projeto para depois ser proibido?
De que forma acontecia a repressão ao teatro?
A violência era muito grande. O CCC (Comando de Caça aos Comunistas) invadiu o Teatro Ruth Escobar e agrediu alguns atores de “Roda Viva”. Muitos nesta época desapareceram e até hoje não foram achados, como é o caso da atriz Heleni Guariba, do grupo Teatro Cidade.
A classe teatral conseguiu driblar a censura de alguma forma?
Como a época era muito difícil para a expressão das artes, no meio disso tudo se começou a escrever metaforicamente. Ou seja, os dramaturgos procuravam uma linguagem que não pudesse ser percebida pela censura e que desse para levar ao palco. Os autores tinham que fazer evoluções intelectuais.
Mas a censura era burra. Por causa da repressão, passou-se a encenar muitas peças clássicas e, para se ter uma idéia, durante a encenação de Antígona, os censores chegaram a chamar Sófocles para se explicar.
A função da ditadura era coibir qualquer manifestação de cunho político. Tínhamos que trabalhar sobre pressão. Era a época do terror.
Como foi para você encenar, em 2007, “Rasga Coração”, peça que trata sobre o tema e foi proibida na época?
“Rasga Coração” faz parte desse período e é um dos ícones do teatro de resistência. Vários motivos me fizeram gostar da peça: o primeiro é que eu sou apaixonado pela história, o segundo pelo que a peça representa e o terceiro, por eu ter sido o protagonista. Então, foi por esse somatório de razões e também pelo grupo do Rio que me convidou para encenar.
Eu via a paixão deles pelo Vianinha e por esse tipo de teatro, político, que ficou esquecido depois da anistia. Atualmente, nós vivemos momentos tristes e precisamos desse teatro. É necessário para a retomada das questões políticas.
Quais foram as diferenças entre a primeira montagem (em 1979) e a segunda ( em 2007) de “Rasga Coração”?
A primeira montagem teve patrocínio do Governo do Paraná e tinham 20 pessoas a mais em cena do que previa o texto. A peça era quase musical, em clima de festa. Isso porque todo mundo já esperava a montagem pelo que ela representava, ou seja, havia uma grande expectativa. O texto havia sido proibido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), depois de ter levado o primeiro lugar no concurso do Serviço Nacional de Teatro. Ou seja, um órgão do governo premiou e outro proibiu.
Já na montagem atual, optamos pela simplicidade. Não há o aspecto de festa que havia na época.
A abertura política contribuiu para uma maior encenação das peças na época proibidas?
Houve uma decepção. Quando a classe teatral abriu as muitas obras engavetadas, percebeu que tinha pouca coisa de qualidade.
Quais foram as conseqüências da repressão para o teatro?
O teatro está profundamente ligado à educação e hoje, como conseqüência da queda no nível educacional ocorrida durante e na pós-ditadura, as escolas estão tremendamente sucateadas. O teatro é uma questão de informação, mas estamos vivendo uma situação de deformação.
Além disso, 21 anos depois da ditadura, ainda não questionamos nem botamos em xeque os problemas políticos. Nós ainda sofremos as seqüelas da época da repressão.
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